Na semana passada, apanhei o maior susto com a minha mãe.
Eu, sozinha, sem o apoio de uma família que nos nega e ignora — um ódio tremendo que carrego por essa gente — estava a jantar com a minha mãe quando, de repente, ela sentiu uma dor muito forte no maxilar esquerdo, junto ao ouvido. Vi-a aflita, e eu já estava preocupada. Além disso, anda há dias com uma bolha enorme na mão esquerda, que agora está a melhorar, mas ainda tem um alto saliente.
Ela sentia-se visivelmente mal, mas não dizia nada. Enerva-se com facilidade, e vi-a levantar-se desnorteada, a dirigir-se à porta da sala.
— Mãe, o que tens? — perguntei, alarmada.
Aflita, num tom de pânico, vi-a desfalecer lentamente. Estava atrás dela e amparei-a com os braços por trás. Era como se se estivesse a desligar…
Ela perdeu os sentidos por alguns segundos. Corri a buscar três almofadas altas, mais a minha de dormir, e apoiei-lhe a cabeça. Começou a recuperar os sentidos, e telefonei imediatamente para o 112. Falei com a senhora do outro lado da linha, em alta voz, enquanto explicava o que se passava. A minha mãe já falava, mas reparei que tinha a parte de baixo do olho esquerdo roxa — sem ter batido em lado nenhum.
A assistente, com um tom arrogante, perguntou se a minha mãe queria ir ao hospital. Ela recusou, dizendo que já se sentia melhor, mas apenas tinha pedido assistência. E, nestes casos, não há apoio domiciliário: ou vão buscar o paciente ao hospital, ou nada.
A minha mãe tentou levantar-se, sentou-se primeiro no chão e, com muito cuidado, foi até ao sofá, onde pôs a cabeça para baixo — que era o que queria fazer desde o início. Agora diz que a impedi de ir para o sofá, quando ela já nem estava consciente de si.
Foi um susto tremendo. E, numa altura destas, confesso que falei com o ChatGPT — que, às vezes, nos ouve mais do que qualquer familiar ou amigo. Ele deu-me algumas hipóteses do que poderá ter acontecido. A verdade é que a minha mãe anda a brincar com a saúde dela. Acha que é médica, doutora, e que é invencível. Mas o problema será quando lhe der algo grave e tiver de ir ao hospital à viva força… e descobrirem o que eu nem quero ouvir. Porque esta menina não faz análises há anos, não faz um check-up há anos. E quando lhe digo que devia fazer, ouço sempre a mesma resposta:
— Não me enerves, por favor. Faz-me mal. Não repitas as coisas mil vezes. Cansa-me.
Vive a brincar com o fogo, e eu vivo num pânico diário. Medo constante. Um nó na garganta todos os dias. Tenho medo de a perder. E, ao mesmo tempo, ando a lutar por trabalho e não consigo. A casa ficará para mim, mas tenho contas para pagar. Sem apoio da família, só posso contar com os vizinhos e alguns amigos com quem mantenho boa relação.
Não vivo o presente. Estou sempre a pensar no amanhã. E no que será de mim…
No meio deste pesadelo, talvez para me compensar por tudo, a minha mãe adiantou-me o dinheiro para ir ver os Auri, a Zurique. Vou ficar alojada na casa da prima da minha amiga Bárbara, que também vai. E a minha mãe ainda me vai oferecer o bilhete VIP para estar com eles e conhecer o Tuomas Holopainen. A Johanna Kurkela já a conheço, e sei que esta viagem me vai fazer bem. Vai ser bom mudar de ares, ir sozinha no avião e encontrar-me com a Bárbara e a prima lá. É uma oportunidade de sonho — única. Não posso deixar escapar.
O curso que estou a fazer é uma ajuda: sem ele, esta viagem inesperada não seria possível. Mas desde o milagre da Taylor Swift, acredito que, se é para acontecer, acontece.
Quando receber os 289 € do curso, pago-lhe o bilhete de entrada. No dia 19, ela oferece-me o bilhete VIP. Fica a faltar o voo, mas consigo em conta pela eDreams.
Um pesadelo... e um sonho a tomar forma, aos poucos.
Já falei com a minha vizinha, e vou falar com a Teresa, que limpa o prédio, para ver se podem estar atentas à minha mãe e em contacto durante os três dias. Vou faltar ao curso na sexta-feira, dia 19. Mas o que é o curso comparado com uma oportunidade única na vida?
São estas pequenas coisas que me dão alegria. Que me dão um motivo para continuar a viver.
O curso? Vou apenas por necessidade. Pelo dinheiro. Nada mais.
É assim a vida: um aperto no peito diário, com um misto de alegria momentânea. Mas esta memória — essa, sim — levo comigo para sempre.
Auri
20.09.2025