quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O Canto das Memórias

Portugal está a sofrer. As águas do Mondego romperam barreiras que pareciam invioláveis, e a estrada desabou, engolida pelo caudal impiedoso. Olho para estas notícias e sinto um nó na garganta. Todos lamentamos as casas perdidas, os bens arruinados, a vida posta em risco. Mas eu… eu sinto outra perda, silenciosa e profunda: 

a minha Quinta.

- O meu lugar de memórias, o meu refúgio, o meu espaço onde cada canto guardava uma história,sorrisos, momentos meus e onde podia ser eu e escapar do mundo cruel. 

Hoje, ao imaginar a água a subir, a inundar o chão que conheço de cor, sinto um aperto no peito que não consigo ignorar. A Quinta já não é minha há 18 anos, já não é o meu lugar de pertencimento, o meu mundo. Provavelmente ainda se mantém em pé, ou talvez tenha cedido, levando consigo pedaços da minha história, do meu riso, das minhas pequenas alegrias, das minhas idas secretas ao escritório do meu avô sentar-me na cadeira dele e sentir a sua presença, o respeito e horas de trabalho. 

É egoísmo, admito. Não posso deixar de me preocupar com este pedaço de terra que já não me pertence. Porque, para além de tudo o que Portugal perde nestas cheias, eu temo perder também a memória viva do meu espaço, que já não posso chamar de meu. 

Que cada casa destruída encontre reconstrução, cada vida afetada encontre conforto. E que, no meio de tanta água e tristeza, haja também a esperança de que a memória dos lugares que amamos nunca se afogue, nem que o mundo se volte contra eles.

Porquê???

A minha vida as vezes parece um karma.  Não tenho alegria, mas tenho motivação para superar obstáculos e lutar por aquilo que qu...